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Radar econômico

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By: RFI Brasil
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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

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  • Bordeaux branco? Tradicional região vinícola francesa se adapta para reagir a crise histórica
    Jul 1 2026
    Os vinhos franceses de Bordeaux, conhecidos no mundo inteiro pelas garrafas que podem custar milhares de dólares, passam por uma profunda transformação, ditada pelo consumidor e por um comércio internacional instável. Carro-chefe da produção da região, as garrafas de tinto têm sido preteridas pelos compradores, que não apenas bebem menos, como se orientam para os brancos e espumantes. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A crise não é nova, nem exclusiva à região do sudoeste francês: desde o início da década, o setor enfrenta um recuo da produção, um reflexo da queda mundial do consumo da bebida, de 14% desde 2018. O atual nível de consumo de vinho se equipara ao de 1957. Ano após ano, o governo subsidia a derrubada de milhares de hectares de videiras em Bordeaux. Mais 10 mil hectares serão arrancados este ano, dando lugar a outras culturas agrícolas ou a uma transição para o vinho branco, tendência mundial nos últimos anos, tomado gelado ou misturado em coquetéis. A mudança representa uma quebra de paradigma para a tradicional região francesa. Bernard Farges, produtor e presidente do Conselho Interprofissional do Vinho de Bordeaux (CIVB), avalia que a parcela de vinhedos de brancos passará dos atuais 10% da região para até 30% no futuro, com foco em três uvas principais: sauvignon, sémillon e moscadelle. Espumantes e até vinho sem álcool Os tintos também passam por uma adaptação para ficarem mais leves e poderem ser servidos frescos, e a oferta de espumantes e até de vinho sem álcool, em crescimento no mundo, quase dobrou nos últimos cinco anos. “O futuro dos vinhos de Bordeaux envolverá, sem dúvida, uma área total de produção menor do que no passado. Embora os volumes devam diminuir, tanto para os grands crus quanto para as categorias de base, os vinhos em si serão muito mais acessíveis ao paladar: apresentarão, de modo geral, estrutura tânica menos acentuada e teores alcoólicos mais baixos, com maior ênfase nas notas frutadas”, explica Farges. “É o resultado de escolhas deliberadas na vinificação, concebidas para atender à demanda dos consumidores.” A transição se tornou um drama social na região. Milhares de pequenos produtores foram à falência; outros, herdeiros de uma tradição familiar à beira do colapso, se suicidaram. Para Jean-Marie Cardebat, economista especializado no setor, a cadeia demorou a reagir. “Falavam em educar o consumidor, esse tipo de coisa. Só que um consumidor não pode ser educado tão facilmente e você tem que saber do que ele gosta”, aponta o professor de Economia e Estratégia da Universidade de Bordeaux. “Estamos pagando o preço da demora na adaptação. Os tintos fortes (‘capiteux’) não são o que interessa hoje. Bebe-se menos nas refeições, o que se quer são mais vinhos que possam ser bebidos com os amigos, à noite.” Exportações em queda e pressão climática O revés se amplificou com a despencada das compras da China, que chegou a ser a maior importadora, mas passou a produzir e incentivar a produção local de vinho. A guerra comercial de Donald Trump nos Estados Unidos, primeiro destino das exportações dos vinhos de Bordeaux, inflige mais um golpe duro aos châteaux franceses. Para completar o quadro negativo, as secas e altas temperaturas intensificadas pelas mudanças climáticas afetam as safras, ano após ano. Especialistas e historiadores do vinho evocam que o setor passa pela terceira maior crise da sua história, depois de uma grande praga dizimar os vinhedos no fim do século 19 e a depressão econômica de 1930. “Houve uma falta de visão estratégica em nível coletivo. Dava para ver que desafios protecionistas viriam”, avalia Cardebat. “Acredito que, há uns dez anos, deveríamos ter começado a explorar outros mercados e a adotar uma postura mais voltada para o futuro”, complementa. Mercosul abre nova frente Os produtores respiraram aliviados com a conclusão do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, que representa uma nova oportunidade para o setor vinícola europeu. Em Paris, a proprietária da loja de vinhos Divvino, Marina Giuberti, nota que os grandes tintos de Bordeaux mantêm a preferência dos clientes brasileiros, mas eles demonstram abertura a experimentar as novas opções que a região oferece. “O nome de Bordeaux é fenomenal. Tem cliente que já chega falando que só ama Bordeaux, só quer Bordeaux, e só tintos”, afirma Marina Giuberti. “A região é muito conhecida pelos grands crus, vinhos com muitos prêmios, mas que na verdade representam apenas 4% de toda a produção. A gente tem 96% dos vinhos mais acessíveis e bacanas, com muitos brancos minerais ou frutados, e a qualidade é boa.” O professor de Economia da Universidade de Bordeaux faz questão de salientar que, apesar da crise, os grandes vinhos tintos da região sempre terão público. “Sempre haverá vinhos tintos complexos – assim como ...
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  • Infraestrutura resiliente no Brasil multiplica por 8 cada dólar investido, aponta estudo internacional
    Jun 24 2026

    A cada US$ 1 investido, US$ 8 de economia. Um estudo de caso sobre o Brasil identificou o potencial de rentabilidade dos investimentos em infraestruturas resilientes às mudanças do clima em três setores-chave da economia: eletricidade, estradas e água.

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    A pesquisa foi promovida pela seguradora AXA com a International Finance Corporation, ligada ao Banco Mundial e especializada em financiamento para países em desenvolvimento. O documento propõe a inversão da lógica da adaptação como um custo para a de avaliar o quanto rende investir para limitar os impactos.

    O estudo identifica as vulnerabilidades das infraestruturas do Brasil a fenômenos como enchentes, incêndios e secas, e aponta investimentos prioritários para país reduzir esses riscos, com forte reflexo no conjunto da economia brasileira.

    O resultado é que, no setor da energia, cada dólar alocado na adaptação da rede de transmissão e distribuição leva a US$ 8,6 em proteção do valor do ativo (NAV) a longo prazo. A taxa interna de retorno (IRR) chega a 886%.

    Por outro lado, a decisão de não investir na adaptação das estradas pode causar perdas de até 28,7% do valor do ativo e 30% no caso das transmissões elétricas, salienta o relatório. Sem proteção, esses ativos se tornarão cada vez mais vulneráveis.

    Projetos simples, efeitos multiplicados

    Projetos relativamente simples e baratos, como instalar para-raios contra tempestades e retirar a vegetação no entorno das redes de transmissão, evitam ou atenuam os impactos de incêndios sobre o abastecimento de luz, evitando apagões, exemplifica Antoine Denoix, CEO da AXA Climate, em Paris.

    “Uma infraestrutura mais resiliente significa a continuidade dos serviços – portanto, obviamente, muito dinheiro economizado e que teria sido perdido em caso de interrupção das atividades”, afirma.

    A economia na infraestrutura de água é semelhante, de US$ 6,3 em média, e inferior no caso de estradas (US$ 2,2), mas em todos os casos, os investimentos se mostram lucrativos a longo prazo, sobretudo quando levam em conta o efeito no conjunto da economia. Uma seca causa prejuízos na agricultura, com impacto na inflação, na renda das populações e no PIB de uma localidade.

    É por isso que os plano mais eficientes de adaptação são concebidos com a participação direta dos atores locais.

    “Devemos ter muita cautela com planos de adaptação impostos de cima para baixo. Acima de tudo, precisamos capacitar as partes interessadas locais, porque a adaptação é cooperativa”, frisa Denoix. “Observamos em um país como a França, e provavelmente também no Brasil, que ainda há muitas empresas privadas cientes dos riscos associados a inundações, ondas de calor ou incêndios florestais previstos para 2030 ou 2050, mas que não compartilham essas informações com prefeitos ou autoridades locais. Ao fazerem isso, elas acabam não tendo sucesso em seus próprios esforços de adaptação.”

    Empréstimos mais longos

    Outra barreira importante é o acesso ao financiamento, em especial do setor privado. O estudo mostra que empréstimos de longo prazo incentivam mais investimentos em adaptação e resiliência do que juros baixos: a extensão do prazo do financiamento de seis para 15 anos poderia dobrar a taxa interna de retorno de um projeto, estima a pesquisa.

    Apenas nos países emergentes, seriam necessários US$ 300 bilhões de investimentos em adaptação das infraestruturas, mas a realidade está distante desta cifra. O capital existe, salienta Denoix, mas não flui nem na escala, nem na velocidade necessária para os países como o Brasil se prevenirem dos eventos extremos que serão mais frequentes e intensos nas proximas décadas.

    As seguradoras estão na linha de frente deste planejamento, onde o cenário mais otimista, de limitar o aumento médio da temperatura no planeta a 1,5C até o fim do século, já é desconsiderado.

    “Preferimos o cenário realista e mediano, pois o cenário otimista já está morto. Obviamente ultrapassaremos 1,5C em nível global”, aponta o CEO da AXA Climate. “Mas, por outro lado, os atuais esforços para reduzir as emissões de carbono, particularmente os da China, ainda nos tornam mais positivos do que no cenário completamente negativo. Tudo vai depender, entretanto, do apetite ao risco dos atores.”

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  • Quanto vale o 'sim'? Pedidos de casamento em Paris viram nicho lucrativo do turismo
    Jun 10 2026
    Quanto vale aquele “sim” eternizado na memória – e nas redes sociais? Em Paris, os pedidos de casamento excepcionais se consolidaram como um nicho lucrativo do setor de turismo e eventos. Um pedido diante da emblemática Torre Eiffel, com arranjos de rosas e tapete vermelho, sai a partir de € 600, mas as cifras podem rapidamente ultrapassar os seis dígitos. Lúcia Müzell, da RFI em Paris Um dos momentos mais procurados do ano é o Dia dos Namorados. Patrícia Lima organiza eventos na cidade desde 2011 e, depois da famosa série Emily in Paris, viu a demanda por pedidos de casamento subir a cada ano, impulsionada pelo efeito nas redes sociais. Hoje, 30% dos contratos que ela fecha são de casais em busca de um “sim” especial em Paris. “Como tudo é personalizado, o valor tem a ver com os pedidos que o cliente faz. Se quer acrescentar balões em forma de coração, quantidade, tamanho. Se quer acrescentar um champanhe de uma marca especial, afinal tem garrafa que custa € 450”, explica. Patrícia afirma ser a única a oferecer um cenário em português, o que lhe permite atrair a clientela lusófona. O goiano Ronivaldo da Costa Meireles decidiu contratar o serviço depois de perceber os olhos brilhando da namorada na primeira vez que o casal foi a Paris e presenciou pedidos românticos nas margens do rio Sena. “Acho que é o sonho de toda mulher e ela merecia passar por essa experiência”, comentou, instantes depois de se ajoelhar diante de Pâmela Costa dos Santos, 29 anos. “Eu não estava suspeitando de nada. Foi uma surpresa muito emocionante”, disse ela, há oito anos em um relacionamento com o agora noivo. Violinista, carruagem e castelo O momento em si costuma ser curto, de apenas alguns minutos. Mas, nos bastidores, a preparação é complexa: decoração com flores, fotógrafo, violinista, carruagem e até o anel de noivado podem fazer parte do pacote, sem falar das autorizações exigidas pela prefeitura de Paris, conforme o local escolhido, e que encarecem o serviço. No setor do luxo, o céu é o limite, podendo atingir dezenas de milhares de euros se o “quer casar comigo?” for pronunciado em um iate no Sena, em uma suíte 5 estrelas com vista privilegiada da Cidade Luz ou até em um castelo. A agência Kiss Me in Paris se especializou nesse nicho, em pleno crescimento, e já realizou mais de 1,2 mil pedidos de casamento. “Estamos atraindo clientes cada vez mais exigentes do mundo todo, e as pessoas gastam muito mais dinheiro. Eu diria que a média fica entre US$ 5 mil e US$ 15 mil, mas tem gente que gasta bem mais”, revela o CEO Cengiz Ozelsel. Só para privatizar um castelo, o valor já sobe para US$ 4 mil. “Eles podem querer o transporte de helicóptero, para ter uma chegada com toda a pompa. Eles querem artistas, ou um dia inteiro repleto de experiências divertidas, que atinjam o ápice no momento do pedido de casamento”, relata, sem esquecer do “primeiro jantar romântico e a primeira noite em um hotel como recém-noivos”. A maioria dos clientes de Ozelsel vem de países anglo-saxões, e principalmente da costa leste dos Estados Unidos. Na América Latina, os mexicanos são os que mais investem em um pedido de casamento “cinematográfico”, conta o empresário, que também já atendeu influenciadores brasileiros. “Os mexicanos visam grande”, resume. “Um dos maiores eventos que fizemos foi um barco enorme, que ancoramos do outro lado da Torre Eiffel. Toda a família do México veio e se escondeu embaixo do barco, e a noiva não fazia ideia de nada. Nunca vou me esquecer.” Concorrência de amadores O sucesso do setor motiva a concorrência, inclusive de amadores. Pacotes pela metade do preço são oferecidos nas redes sociais, porém o risco é acabar em decepção. “Sempre existiu, mas tem se intensificado: pessoas que não são registradas, não têm empresa, e muitas vezes até sem capacitação para isso”, aponta Patrícia Lima. “Elas não pagam impostos, não pagam contador nem aluguel, então obviamente os custos delas serão totalmente diferentes dos de uma empresa.” A utilização das margens do Sena, por exemplo, é regulamentada pela prefeitura. A gestora do local exige o pagamento de uma taxa e de um seguro para cada participante do evento, inclusive os organizadores. Os infratores podem ser multados e o evento ser desmontado às vésperas do momento tão sonhado pelo casal. Leia também‘Parece a Disney’: moradores do bairro Montmartre estão preocupados com excesso de turistas em Paris
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