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O Mundo Agora

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By: RFI Brasil
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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

France Médias Monde
Politics & Government
Episodes
  • Copa 2026 expõe fissuras do tratado comercial entre EUA, México e Canadá
    Jun 29 2026
    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na FIFA planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio é disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado. Thiago de Aragão, analista político O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática. Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um território contínuo. A premissa do megaevento é a integração, e é precisamente essa premissa que a política comercial e migratória do principal anfitrião vem relativizando ao longo do último ano, à medida que tarifas e controles de fronteira retornam ao vocabulário das relações regionais. A dimensão histórica torna o contraste ainda mais interessante, e poucos se lembram dela. Em 11 de março de 1983, quando a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986 alegando dificuldades financeiras, foram exatamente três países que se apresentaram para assumir a vaga: México, Estados Unidos e Canadá, com o México escolhido em 20 de maio daquele ano. Os mesmos três protagonistas que em 1983 competiam entre si por um torneio dividem agora a organização de outro, o que sugere que a vizinhança norte-americana é uma constante de longa duração, enquanto o que efetivamente oscila, de uma década para outra, é o grau de confiança e de previsibilidade que sustenta a cooperação entre eles. O quadro atual ilustra bem essa oscilação. Ao longo do último ano, as travessias terrestres entre os três países passaram a operar com triagem biométrica e tecnologia de comparação facial funcionando no limite da capacidade nos principais portos de entrada, o que revela um anfitrião que, no mesmo gesto, abre as portas para o maior espetáculo esportivo do planeta e reforça o escrutínio sobre quem circula dentro dele. A leitura analítica que interessa não é moral, e sim estrutural: o evento exige fluidez, ao passo que a política regional caminha na direção do filtro, e essa divergência entre o que o calendário esportivo pede e o que a agenda econômica oferece é o dado central a observar. Vocação original comprometida A contradição que merece ser nomeada, porque é dela que decorre tudo o mais, está na própria natureza do tratado que une os anfitriões. O acordo nasceu para permitir que mercadorias e pessoas circulassem com o mínimo de fricção, e a revisão tarifária em curso opera em sentido contrário a essa vocação original, de modo que a Copa, ao exigir circulação intensa entre as três jurisdições, acaba expondo na prática a distância entre o discurso da integração e a realidade da fragmentação. Os três países demonstram que conseguem coordenar a logística do maior evento esportivo do mundo, e demonstram, simultaneamente, que coordenar a manutenção do tratado que deveria uni-los é tarefa de outra ordem de dificuldade. Para o México, a posição é particularmente delicada, na medida em que o país é coanfitrião e, ao mesmo tempo, o alvo mais direto tanto da pressão tarifária quanto do endurecimento da retórica de fronteira, o que produz a imagem de uma nação que recebe jogos em três de suas cidades enquanto vê seus cidadãos submetidos a controles reforçados para assistir às partidas do outro lado da linha. Para o Canadá, o desconforto é menos visível, porém igualmente concreto, já que Toronto e Vancouver sediam jogos ao mesmo tempo em que Ottawa absorve tarifas e processa uma retórica de Washington que oscila entre a parceria e a rivalidade, convivendo com a tarefa de organizar em conjunto um torneio com o vizinho de quem depende e do qual, ao mesmo tempo, busca se proteger. Controle e desconfiança É nesse ponto que a análise interessa diretamente a quem investe e observa a região de fora, e é também onde o Brasil entra. O que a Copa de 2026 revela, para o capital, é que a América do Norte deixou de funcionar como o bloco previsível que o investidor leu durante três décadas, aquele espaço econômico integrado de regras estáveis, cadeia produtiva costurada e fronteira funcional, e passou a operar sob uma camada de aparente continuidade institucional que esconde uma dinâmica real de desconfiança, tarifa e controle. A diferença é decisiva para quem aloca recursos, porque um bloco ...
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  • Como a China trocou a dependência pelo protagonismo estratégico na economia do futuro
    Jun 22 2026

    Visto da China, o G7 parecia girar em torno de uma questão: será que as economias mais avançadas do Ocidente podem reduzir sua dependência de Pequim?

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Foi-se o tempo em que os carros chineses pareciam feitos de papelão. Em Xangai, a regra são os modernos veículos elétricos que cruzam silenciosamente as avenidas da cidade. Ao mesmo tempo, milhões de pagamentos são feitos por QR Code e trens de alta velocidade ligam metrópoles distantes em poucas horas. O presente chinês parece, de fato, coisa do futuro.

    Foi dessa China que acompanhei as notícias do G7 – o clube das economias mais avançadas do Ocidente – reunido em Évian, na França. Sim, mesmo estando longe de Paris, onde moro, continuo falando da atualidade francesa. Mas agora a observo pelo olhar chinês.

    Oficialmente, a China não era o tema central do encontro. Mas ela estava presente em quase todas as conversas.

    A principal iniciativa econômica anunciada pelos líderes do G7 foi o reforço da cooperação para reduzir dependências em áreas consideradas estratégicas, especialmente os minerais críticos e as chamadas terras raras, indispensáveis para baterias, carros elétricos, semicondutores e equipamentos militares.

    O comunicado do G7 evitou apontar um alvo. Ainda assim, ninguém teve dúvidas sobre quem estava sendo discutido.

    A China ocupa uma posição dominante em diversas etapas da cadeia de produção desses materiais. Para a Europa, sobretudo, o equilibro não é fácil: diante da administração errática na Washington de Donald Trump, os europeus observam a China, por um lado, como parceiro mais confiável do que os Estados Unidos, mas com o qual se estabelece cada vez mais uma relação de dependência.

    Nos últimos meses, restrições impostas por Pequim às exportações de alguns deles aumentaram a preocupação de governos e empresas ocidentais. O objetivo do G7 é simples: reduzir vulnerabilidades e diminuir a dependência em relação à China.

    Neste imbróglio, a reação de Pequim foi clara. Autoridades chinesas acusaram o G7 de politizar questões econômicas e defenderam seus controles de exportação como uma prática legítima para proteger interesses nacionais.

    O episódio revela uma inversão histórica interessante

    Durante décadas, a ascensão chinesa foi interpretada como consequência de sua integração a uma ordem econômica internacional dominada pelo Ocidente. A rigor, se formos mais atrás na história, a China parecia ocupar uma posição subalterna no arranjo das nações desde as Guerras do Ópio, em meados do século XIX, que inauguraram o chamado Século das Humilhações. Derrotas militares, tratados desiguais e intervenções estrangeiras reduziram drasticamente a autonomia do país diante das potências ocidentais.

    Mesmo nas últimas décadas, a China dependia dos mercados externos, dos investimentos estrangeiros e do acesso às cadeias globais de comércio para sustentar seu desenvolvimento.

    A ironia é observar, em Évian, o que parece ser uma inversão de papéis. As potências que durante muito tempo moldaram as regras da economia internacional discutem hoje como reduzir sua dependência em relação à China. Pequim não substituiu o Ocidente no comando do mundo, mas conquistou uma posição estratégica em setores considerados essenciais para a economia do futuro.

    Observando os carros elétricos que cruzam as ruas chinesas, fica difícil não pensar que essa é uma das questões centrais do nosso tempo. Não apenas quem produz mais ou quem cresce mais, mas quem depende de quem.

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  • EUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil
    Jun 15 2026
    Toda medida externa que cai num ano eleitoral deixa de ser o que era. A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos nasceu instrumento de segurança e de risco financeiro. Mas a quatro meses da eleição, se transformou em variável de campanha. E o que a torna interessante é que ela rende para os dois lados ao mesmo tempo. Thiago de Aragão, analista político Antes dos efeitos, um ponto que precisa ficar de pé, porque a leitura preguiçosa já contaminou o debate: a designação não é obra de Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal à presidência) nem da família. O Departamento de Estado vinha costurando isso há pelo menos dois anos, dentro de uma lógica própria de Washington, a de jogar a moldura de contraterrorismo sobre o crime organizado latino-americano. O lobby da oposição acelerou e se pendurou ruidosamente num movimento que já corria. Não o criou. Quem troca coincidência de calendário por causa atribui a Brasília um poder de pauta sobre Washington que ela nunca teve. Dito isto, a sequência importa. No dia 28 de maio, horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou a classificação das duas facções. A designação plena entrou em vigor em 5 de junho. O calendário enfia a medida dentro da disputa, e é isso que a torna analiticamente rica. Comece pela leitura óbvia. Segurança pública é a maior preocupação do eleitor brasileiro, e é o terreno em que o campo de Flávio Bolsonaro historicamente joga em casa. Pela lógica de campanha, equiparar PCC e CV ao Hamas e ao Estado Islâmico reforça a narrativa de mão firme e ainda projeta um aliado externo poderoso no combate ao crime. Para esse cálculo, a designação é ativo. O eleitor não lê uma medida externa só pelo prisma da segurança. Lê, ao mesmo tempo, pelo prisma da soberania. Uma classificação decidida fora do país, sobre facções nacionais, aciona um reflexo antigo, a desconfiança de tutela estrangeira. Para o governo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, isso abre espaço para puxar o discurso de defesa da soberania. Pela mesma medida, pelo mesmo motivo, a designação também é ativo para o outro campo. Aqui está o nó. A mesma variável alimenta os dois discursos centrais da eleição. Ordem contra o crime de um lado, soberania nacional do outro. Quem ganha não depende do fato, depende de qual chave de leitura prevalece no eleitor entre hoje e outubro. Disputa de enquadramento, não de dado. A partir daí, os desdobramentos se ramificam. Vale mapeá-los com frieza. Se a chave da segurança vencer, o tema mantém a eleição no terreno onde a oposição é mais forte, e a cooperação com Washington vira credencial. Se a chave da soberania vencer, o tema escorrega para o terreno onde o governo articula melhor, e a medida vira símbolo de ingerência a ser repelido. Os dois cenários são plausíveis, e a pesquisa de hoje vale pouco para dizer qual prevalece em outubro. Lente do bolso pune quem governa Há um terceiro desdobramento que costuma passar batido, porque mistura economia com política. A designação não vem sozinha. Vem acompanhada da proposta de tarifa de 25% e da exposição do sistema financeiro brasileiro ao risco de sanção secundária. Enquanto esses efeitos forem abstratos, a briga fica no campo simbólico, onde soberania e segurança rendem voto. No instante em que virarem concretos, custo mais alto, atrito bancário, pressão sobre o emprego industrial, o eleitor larga a lente simbólica e pega a lente do bolso. E a lente do bolso, historicamente, pune quem governa, não quem se opõe. Esse vetor corre contra o governo, ainda que a chave da soberania o favoreça no curto prazo. Some os vetores. A designação é uma variável de sinal trocado. Ajuda a oposição no eixo segurança, ajuda o governo no eixo soberania, e tende a prejudicar o governo se e quando o custo econômico se materializar. Nenhum dos dois lados controla qual desses efeitos domina, porque o que decide não é a medida. É a ordem em que os impactos chegam ao eleitor. E existe um desdobramento que sobrevive à eleição e não escolhe vencedor. Classificar facções brasileiras sob a moldura de contraterrorismo cria um precedente que passa a integrar a relação Brasil-Estados Unidos de forma permanente. Vale para quem sair das urnas em outubro, seja quem for. O candidato que hoje trata a medida como aliada é o mesmo que amanhã, no poder, herda o precedente e o que vem com ele, inclusive o que não previu. A conclusão é simples e incômoda para os dois campos. A designação foi incorporada à eleição como se fosse ativo de mão única. Não é. É variável que rende para quem souber enquadrá-la melhor no curto prazo, e que cobra de quem estiver governando quando a conta ...
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