Missa do galo é uma espécie de arqui-conto; de ambiente rigorosamente limitado, restrito, abafado, parece ser uma espécie de mímesis da própria estrutura modelar do gênero, mas seria também, uma espécie de emulação da própria estrutura do casamento burguês? Do próprio enclausuramento da mulher?
O conto que começa com o narrador, Nogueira, afirmando, como personagem da própria história, que o que vai contar é da ordem do incompreensível: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” Como já disse Bento Santiago “Abane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade.” mas, sim, quem conta essa historieta jamais a entendeu. Porque é tonto, limitado, ingênuo? Ou justamente porque não é nada disso?
Este conto também é responsável por nos oferecer uma das personagens femininas machadianas mais fascinantes e intrigantes: Dona Conceição, a mulher casada de trinta anos, traída pelo marido, que pode aparentar moderação, passividade, nem beleza, nem feiura: “Não sabia odiar; pode ser que não soubesse amar.” Mas que, como por encantamento, tona-se singular, distinta, impressionante: “ela, que era apenas simpática, ficou linda, lindíssima.”
Para tentar fazer o que o Nogueira não conseguiu (ou não quis fazer, ou seja, entender o que realmente deve ter acontecido às vésperas da Missa do galo), convidamos Wilton Júnior, o Tom, professor da Faculdade de Letras, na área de análise do discurso, e poeta. Falamos sobre o tema do teatro, sobre o desencontro proposital entre a linguagem verbal e o gestual, sobre o domínio da ambiguidade, sobre narradores coniventes e sobre o inconcebível e inominável desejo feminino.
Sugestões de leitura:
Tristezas de uma geração que termina, Cilaine Alvez Cunha
Missa do galo (figura e fundo, a sedução), Lucia Serrano Pereira no livro O conto machadiano – uma experiência de vertigem
Crítica, deslocamentos e transgressões em Missa do galo de Machado de Assis, Tania T. S. Nunes
Missa do galo – variações sobre o mesmo tema (coletânea de contos “inspirados” em Missa do galo escritos por Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Osman Lins)
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Machado: um conto é um podcast feito por:
- Entrevistado: Tom;
- Apresentação: Eugênia Fraietta e Victor Creti;
- Direção de gravação e Edição: Victor Creti;
- Arte original: Eugênia Fraietta;
- Design das capas e episódios: Victor Creti;
- Esse podcast usou músicas de BlueDot Sessions.