A Arte de Voltar para Si
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Às vezes a vida nos educa a golpes silenciosos: aprendemos a falar conosco com as vozes antigas de quem não soube nos ver, a medir valor por produtividade, a confundir dureza com caráter. O corpo, porém, é um arquivo íntegro — guarda cheiros, gestos, sobressaltos; e a alma, paciente, continua acenando da margem, pedindo um trato menos bruto. Crescer, percebi, não é erguer uma fortaleza contra o mundo, mas aprender a hospedar-se a si mesmo com dignidade: dar nome ao que dói sem fazer da dor um trono, cultivar limites sem tornar-se muro, trocar o chicote por uma disciplina terna. Não é teoria descolada do chão: é neuroplasticidade cotidiana, é estoicismo aplicado ao simples, distinguir o que posso mover do que apenas atravesso, é ética do cuidado virada para dentro, como quem rega uma horta e não como quem tenta dominar uma montanha. Um dia qualquer — pia com louça, notificações piscando, o relógio exigindo pressa, decidi trocar a pressa por presença.
Apertei o passo de volta ao meu corpo, ajustei a respiração, ouvi a biografia escondida no meu peito. Foi então que eu olhei pra mim mesmo e disse: Te amo, te respeito e farei com que você se torne grande! Aquilo soou menos como slogan e mais como pacto: amar não é eximir de responsabilidade, é assumi-la com bondade; respeitar não é evitar o espelho, é sustentá-lo mesmo quando ele retorna verdades incômodas; tornar-se grande não é colecionar aplausos, mas tornar-se inteiro o bastante para que o aplauso já não decida nada. Desde então, grandeza passou a ser verbo de rotina: dormir quando é hora, beber água como quem assina um contrato com a vida, dizer “não” sem culpa, pedir ajuda antes do abismo, estudar por curiosidade e não por medo, fazer terapia como quem limpa a janela para ver melhor as cores do dia.
Descobri que a autoestima não é um sentimento que nos visita; é uma prática, um ofício. A cada manhã, reinstalo o respeito com pequenos ritos: um café tomado sem guerra, uma caminhada que conversa com os pés, um elogio honesto ao que consegui sustentar. A filosofia (de Aristóteles à fenomenologia) sempre chamou de “boa vida” esse acordo entre virtude e hábito; a psicologia chama de “ambiente suficientemente bom” o território onde podemos experimentar sem nos despedaçar. Por muito tempo eu quis um recomeço dramático, um fogo de artifício; o que me salvou foram as migalhas de começo: um e-mail escrito com gentileza, uma conversa difícil adiada por uma hora para que a emoção assentasse, um limite dito com voz mansa, um abraço dado no tempo certo. Aprendi a diferenciar a dor antiga da ameaça presente; quase sempre o mundo não está me ferindo — é a cicatriz pedindo cuidado.
E, quando me percebo tentado a voltar aos velhos castigos, lembro-me de que ninguém floresce sob humilhação, e que a firmeza mais bela nasce da ternura; que coragem não é barulho, é permanência. Grande, agora eu sei, é caber em mim sem me arrancar para fora: é poder olhar nos próprios olhos sem baixar a cabeça; é tornar-me casa para o que em mim é recém-nascido e também para o que já quer despedir-se. Se um dia você se encontrar cansado de si, experimente o gesto simples que me devolveu ao eixo: sente-se ao lado da sua história, ouça-lhe o fôlego, e faça com ela um voto discreto — não de perfeição, que é miragem, mas de presença. A vida não pede espetáculo; pede um guardião paciente. E, quando essa guarda se faz, o mundo deixa de ser ringue e vira campo: há trabalho, há vento, há demora — e há, enfim, espaço suficiente para que a sua grandeza não seja ruído, mas raiz.